PATRÍCIA NEME (Brasil)



























Poemas do livro “TEMPOS”, no prelo.

I

Verde-amarelo o chão que a dor irriga,
quando a chibata ruge, prepotente;
o sangue escorre,
corre...
E a terra,
em reverência à agonia,
pariu Maria.
Não a louvou o murmurar de uma cantiga;
não houve colo a lhe manter o corpo quente.
Assim, sozinha,
amarga vida ela percorre
e alheia à sina
que não porta regalia,
Maria é alegria.
Guerreira, solidária, alma forte,
batalha até viver a própria morte
e faz-se renascer a cada dia.
Verde-amarelo...
No chão,
onde o racismo inda perdura,
Maria, negra,
aposta na ventura.
E mais que um nome santo
ela é a imagem...
Da coragem!



II


Não ouvem, do Ipiranga,
às margens plácidas,
o grito retumbante da Eliza.
E o sol da liberdade não aflora
no céu da negra noite de Isabella.
Não houve qualquer chance de igualdade
e Mércia pereceu por braço forte,
tragada em água turva, até à morte.
Ó pátria, tão amada, idolatrada...

Das filhas que te habitam,
sonhos vívidos,
porque o deleite, a sede pelo sangue
de todas as Marias desta terra
cujo destino é sempre tão hostil?
Da pátria amada, idolatrada,
Deus, nos salve...
E salve a adolescente que é estuprada,
a jovem, cuja vida é massacrada,
a idosa, com machado assassinada.
Acode-nos, Senhor, misericórdia
das mães e filhas deste chão Brasil.
Que um raio de esperança até nós desça,
e a luz que há no Cruzeiro, prevaleça.



III

Efêmero momento,
de amor -  como é chamado,
e o corpo se dilata,
o ventre cresce;
é a vida explodindo em som calado,
é todo o universo condensado,
no pequenino ser que, em mim, floresce.
Milagre que extasia
– será real, ou mera fantasia?
meu coração ecoa compassado;
sou ponte entre o presente e o futuro,
sou nada...
E, também, porto seguro,
sou hoje, amanhã e sou passado.
Na dor que dilacera,
como semente a se romper em primavera,
me sinto tão maior,
enaltecida!
Sou mãe!
Como mulher, complementada!
Maria,
a que foi santificada!
Sou fonte,
sou princípio...
Eu Sou vida!



IV

Maternidade...
É gota de vida
no chão do meu ventre,
filete de sonho
num manso surgir.
No peito ninado,
ao canto do vento,
no sono da estrela,
em sóis a surgir.
Riacho maroto,
que corre, travesso,
nas horas vividas
do meu existir.
Seu leito eu preparo
num gesto de afago,
com pranto, com riso,
com fé no porvir.
Meu ribeirão cresce,
pujante, altaneiro,
em força, em desejo,
de pleno fluir...
E a margem que eu traço,
limita a corrente,
põe formas, medidas...
Dá rumo a seguir.
Mas chega o destino,
contando as histórias
de novas paragens,
de um outro expandir...
E em quedas, ou glória,
meu rio se lança
buscando a quimera
então, descobrir....
E a mim, só me resta,
a prece silente,
corpo, alma, presentes...
Quando ele pedir!



V

Perpétuo moto,
já nem sei des’quando...
Filhos – são três;
mas quanta agitação.
Na mesa farta, um indicativo:
sou cozinheira de forno e fogão.
A roupa suja brota das paredes,
que alguém decora com marcas de mão;
eu lavo, passo, dou alguns pontinhos,
faço bainha, reprego botão.
Molhar as plantas,
faxinar janelas,
lavar banheiros,
arear panelas,
na sexta-feira, encerar o chão.
Na correria, pão de cada dia,
num volteado, olho no espelho,
e estranho o rosto, de funda expressão.
Onde o frescor do traço adolescente,
o ar maroto, quase irreverente?...
E o meu cabelo... Tornou-se algodão!
Então, sorrio ante tal surpresa:
se foi o Tempo – e que indelicadeza,
nem me falou da sua afobação!



Sonetos do livro “SONETOS EM DOR MAIOR”

A Um Poeta
Patrícia Neme


Quem é esse que, em versos, minh´alma desperta
e que a faz se perder em mil tramas de amor?
Como pode entender a carência encoberta
e meu sonho mais caro em soneto compor?
 

Quem me vê tão desnuda e nas rimas me oferta
os anseios perdidos nas brumas da dor?
Quem me sabe encontrar de maneira tão certa...
quando eu não mais ousava venturas supor?


Quem me faz suspirar, quem meu peito acelera,
onde está esse alguém, que me exila na espera...
No desejo, saudade... onde achá-lo, afinal?


Ah!, Poeta... Eu quisera de ti ser a musa,
em teus braços viver para sempre reclusa,
embalada ao cantar de gentil madrigal!



Até que...
Patrícia Neme


Se o amor, por fim, resolve se achegar...
Vou enfeitar com flor o meu cabelo
e me banhar em gotas de luar;
vou me vestir com mimos e desvelo.


E sorrirá o mundo em meu olhar,
nos girassóis, meu riso a recebê-lo.
Quero jasmins embevecendo o ar
e uma viola, ao longe, em doce apelo


para que venha logo, sem demora,
nesta janela estou, já desde a aurora...
Meu coração palpita, com furor.


Minha esperança ruma à eternidade...
Asas abertas... Voo à liberdade...
Até que chegue o amor... Sou beija-flor!



Soneto da Saudade
Patrícia Neme


O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.


Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...

A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.


Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!


 
Noites
Patrícia Neme


Em todo entardecer escuto passos,
na estrada que se achega ao meu portão;
embora haja penumbra, vejo os traços
dos andarilhos... Deus! E quantos são!


Na casa, se assenhoram dos espaços,
percorrem cada palmo do meu chão.
Semblantes - de ventura tão escassos,
contemplam-me... E na dor me envolvo, então.


Porque nos olhos meigos dos meus sonhos,
o amor sulcou caminhos tão tristonhos,
onde apenas saudade floresceu!


À noite, em rito insano de agonia,
unidos, sonhos, eu... E a nostalgia...
Ninamos o que nos restou de teu.



Partida
Patrícia Neme


Agora... A vida já se perde no horizonte
finda a existência... O sol repousa... Calmaria...
La nave va, ao som do remo de Caronte,
< pra trás restaram ilusões e fantasia.

 
Recordo a vinda... Fomos Luz da mesma fonte,
centelhas gêmeas, gotas da infinda harmonia.
Mas o destino, num cruel ato de afronte,
nos relegou ao desamor da ventania. 


E nos perdemos nos desvãos da caminhada,
nos esbarramos, por instantes... Só... Mais nada...
Outra vivência sem estar nos braços teus.


Mia nave va... Contemplo além deste momento...
Eu sei que, um dia, existirá merecimento...
E além do tempo, não diremos mais “adeus”!

ÂNGELA EVELINE (Brasil)























Alegre Coração
Ângela Eveline

O meu alegre coração descrente
não tem uma atitude irrefletida.
Esquece e passa. Vive, simplesmente,
na sua torre de marfim perdida.

Se a réplica ferina do insolente
fá-lo sofrer no turbilhão da vida,
sorri e, em seu sorriso indiferente,
transforma num escárnio a dor sentida.

O mundo é vão. Se nele alcança a glória
o adulador servil da nobre escória
que pela insídia reina soberana,

o meu alegre coração bem sabe
que reis, truões, mendigos, tudo cabe
na pequenez da sepultura humana.

Amar
Ângela Eveline 

Nas suaves cores da inocente face
eu amo a vida alegre que floresce!
E mais feliz seria se findasse
a íntima dor de tudo que padece.

Eu amo o ser que luta pela messe
sem que jamais sua fé ele negasse!
E imploro à Divindade em cada prece
que o mundo tenha a paz por santo enlace.

Desejo amar, amar perenemente
todo infeliz e todo penitente,
amenizando a dor do sofredor.

Eu quero amar à luz do claro dia,
lutar pelo reinado da harmonia
e não sentir vergonha desse amor.

Compasso da Vida                       
Ângela Eveline 

As horas correndo
e os filhos crescendo,
                    crescendo pro mundo...
Faz dia, faz noite.
O tempo é um açoite
                   que fere tão fundo...

Relógio batendo,
o sino tangendo
                   no mesmo compasso.
O dia começa,
a vida tem pressa
                    e esqueço o cansaço.

Lá fora a batalha.
Não pode haver falha,
              há que se vencer.
Cá dentro a rotina,
o tédio domina
             e mata o prazer.

As horas correndo
e os filhos crescendo,
                   crescendo pro mundo...
Miséria, aflição,
vileza, ambição.
                   Que charco este mundo!

Meu Deus, que agonia!
A vida é tão fria
          que traz a incerteza.
Não vou desistir,
o bem há de vir
          e dele a certeza.

Talvez, algum dia,
retorne a alegria
            e o medo se acabe.
Justiça, bondade,
amor, caridade, 
           um dia, quem sabe?...

Duas Almas
Ângela Eveline 

Quisera amenizar-te os desalentos
no cárcere onde a vida nos tortura.
Debalde sonho... Um dia os sofrimentos
hão de levar-te à porta a desventura.

Quisera dar-te cálidos momentos
de paz e amor, de sonho e de ternura
e, sob a luz de novos pensamentos,
fazer de cada mágoa uma ventura.

Mas como sofres, sofro suplicante
e olhando, humilde, o azul do céu distante
sonho existir um mundo mais bendito

e penso ver nas noites estreladas
as nossas duas almas abraçadas
nos siderais espaços do Infinito...

Eterno Gracejar
Ângela Eveline 

A dor, em seu eterno gracejar,
deixou-me a gargalhada pelo pranto.
Por isso não te iludas, pois do canto
fiz outro modo alegre de chorar.

Quando não pude as dores suavizar,
fiz do sorriso um íntimo acalanto
e agora, num contraste sacrossanto,
sorrio não podendo soluçar.

Na lágrima escondida na risada,
sinto a grotesca e humana mascarada
que espera flores cultivando abrolhos.

Não chores nunca e esquece o pessimismo
que o mais sublime e humano vandalismo
é gargalhar com lágrimas nos olhos.

Flor do Amor
Ângela Eveline 

Eu sou a flor proibida
do amor eterno, grande, pleno, lindo.
A flor de luz que o sonho vai abrindo,
flor das delícias do prazer nascida.

Eu sou a flor proibida,
a flor carmim de uma paixão ardente
que anseia receber a seiva quente,
em êxtase total embevecida.

Eu sou a flor proibida
de pétalas macias, veludosas,
de formas sedutoras misteriosas,
de delicada graça indefinida.

Eu sou a flor proibida
de desejar amar um ser somente
e de entregar-me a ele totalmente
para florir liberta pela vida.

Eu sou a proibida flor do amor...

Matéria
Ângela Eveline 

Matéria! Escrava eterna da agonia,
fugaz como uma sombra refletida...
És transitória e em breve apodrecida
desaparecerás na tumba fria.

Tens o prazer de amar em demasia
e ver da natureza colorida
a flor, a luz, o céu, o mar, a vida.
Mas certamente chegará teu dia.

O Eterno deu-te um sonho doloroso
para que sintas o estertor do gozo
que das entranhas do teu seio medra.

E a tua face esfíngica, marmórea,
deixa transparecer a tua história
no teu olhar estático de pedra.


Sinfonia de Doçuras
Ângela Eveline 

Oh!... Seu pudesse em harmonias puras
dizer-te o que minha alma anda sonhando;
se em claros sons vibrando de venturas
tudo eu pudesse te dizer compondo; 

se em puros sons falasse das ternuras
que há muito tempo na alma estou guardando;
se numa sinfonia de doçuras
eu te dissesse quanto estou amando... 

A música seria o amor vivido,
seria luz... a luz dos céus, querido,
que traz aos mundos o esplendor do dia... 

seria um canto... um canto tão divino
que cada som vibrando cristalino
era um pedaço da alma em harmonia...

Soluças, Mar?
Ângela Eveline 

Mar que soluças preso nas voragens,
mar descontente, eterno condenado
aos ímpetos dos ventos mais selvagens,
em cárceres terrenos algemado... 

Teu grito, ó mar, clamor desesperado,
leva o indiferentismo das aragens,
depois se desvanece abandonado
nos âmagos sombrios das paisagens. 

Vives assim, em ânsias, como vivo,
revolto em lutas a gemer cativo
na imensa vastidão das tuas plagas. 

Soluças, mar? Debalde tu soluças
porque nas praias onde te debruças
ninguém entende o soluçar das vagas.

                                                    
Um Poeta
Ângela Eveline

Sentir na imensidão do azul imaculado
todo frescor da aurora e a tarde em esplendor,
sentir-se divagar pelo céu constelado,
banhando-se ao luar de místico palor...

Ouvir do mar sereno o coração velado
nas ondas a pulsar... E ouvir da rósea flor
a voz do seu perfume etéreo e delicado
e a tudo dedicar um verdadeiro amor...

Amar! Amar da vida as imortais venturas
e em sonho refulgir como astro nas alturas,
querendo florir como florem as alfombras

e apenas ser poeta enaltecendo em vida
esta longínqua perfeição inatingida 
e despertar a sós num pantanal em sombras.


Cálida Bonança
Ângela Eveline

Amando espero... Pouco mais existe
nas areias silentes do deserto;
pela aridez desse caminho incerto
creio que tudo só no amor consiste. 

Porque do amor o  santo pálio aberto
é abençoado oásis para o triste
e sei que nada mais no mundo existe
que nos console sempre tão de perto. 

O tempo tudo mata e tudo esquece...
Mas meu sonho de amor vive e floresce
e a vida desse sonho se alimenta 

porque o amor é cálida bonança
que torna os dias plenos de esperança,
aliviando um pouco esta tormenta.


Cárcere da vida
Ângela Eveline 

De que vale partir se nas entranhas
levas os germes de inefáveis dores?
Se a vida sob o céu de outras montanhas
é a mesma serpe que se oculta em flores? 

De que vale partir como os condores
para fugir das desumanas sanhas,
se para a mágoa, a dor dos sofredores,
jamais existirão terras estranhas?

O que me punge sempre é ter sentido
que tudo, em toda parte, tem sofrido
os grilhões do infortúnio indiferente.

E o que é mais vil? É o cárcere da vida
e a dor em nosso peito reprimida
que faz de pedra o coração da gente.

HUMBERTO RODRIGUES NETO (4º Poeta Convidado)





HUMBERTO RODRIGUES NETO (HUMBERTO-POETA)
(11-11-1935, Lapa, São Paulo/SP - 04-06-2017, São Paulo/SP)

A admiração, o aplauso e a saudade eterna do


(Blogue Expressão Mulher-EM)
Rio de Janeiro/RJ, 04 de junho de 2017.


Quando me foi apresentado o “Expressão Mulher”, tive a oportunidade de registrar mais demoradamente, no livro de visitas, a forte impressão que me causara tão simpático e expressivo blog, magistralmente preparado por Ilka Vieira e Regina Coeli, como uma tribuna livre de valorização da mulher intelectual em todos os ramos da atividade humana. E esse evento foi oportuníssimo, mormente numa época em que uma série apreciável de mulheres ainda sofre toda sorte de humilhações e menosprezo por parte daqueles que, na contramão do progresso,ainda persistem em subestimar as suas inegáveis qualidades intelectuais. Parabéns, sim, parabéns à Ilka e à Regina por este memorável e oportuníssimo evento.


Mulher
Humberto Rodrigues Neto


Eu creio, isento de engano,
me orgulho, vibro, me ufano
e aposto com quem quiser
que toda data é importante,
mas delas a mais galante
a mais linda e mais marcante
é mesmo o “Dia da Mulher”!

Mãe, irmã, esposa e amante,
quem não se curva diante
da sua cultura e valor?
E ao ser o tudo de um nada,
ela é um misto de anjo e fada,
mescla de noite e alvorada,
fusão de estrela e de flor!

Cabelos vestindo os ombros,
flor a se abrir entre escombros,
lábios rindo em rosicler...
Tudo nelas é formoso,
seu sorriso é tão charmoso
que até Deus anda orgulhoso
por ter criado a Mulher!


Minha Casa
Humberto Rodrigues Neto

 
A minha casa eu adoro,
pois tem tudo o que me baste;
no jardim vejo e namoro
duas rosas na mesma haste!

Quando no meu micro canso
os dois olhos já purpúreos,
na lavanderia os lanço
nas samambaias e antúrios

Na horta a toalha liberto
das migalhas que em  si traz,
e ali fica o campo aberto
aos bem-te-vis e sabiás!


No domingo, um dia de gala,
dou à casa novas cores,
da feira trago, e na sala
coloco um vaso de flores.


Mesmo assim vejo tristeza
na casa que eu gosto tanto...
pressinto nela a frieza
de algum vago desencanto...


E por senti-la algo triste,
me disponho a interpelá-la
se alguma coisa ainda existe
com que eu consiga enfeitá-la.


É então que adivinho nela
aquilo que há tanto quer:
que eu traga outra vez pra ela
um sorriso de mulher!


Cântaro
Humberto Rodrigues Neto


Com que amor a campônia vai, cedinho,
com o jarro à fonte, a enchê-lo de água pura!
E volta, e a distribui, toda candura,
aos seus, na paz tranquila de um ranchinho.

Faz do exemplo trivial dessa figura
um rumo a palmilhar no teu caminho;
em ânfora de amor, não de água ou vinho,
converte essa tua alma  hoje insegura.

Nos vácuos desse cântaro, hoje frios,
despeja o bem que possas e vê quanto
é lindo o amor sem pompas e atavios!

Que o amor que dele vertas seja tanto,
que dê pra encher mil cálices vazios
de amargos corações em desencanto!


Às Formatadoras
Humberto Rodrigues Neto


Ela analisa e sente o belo tema
e os versos vai gravando na lembrança
atenta ao estro que o poeta lança
nos meandros que tece em seu poema.

Mil filigranas a um fio d’ouro trança
e ausculta a nota de um sutil fonema;
mistura a cor ao som, compondo um esquema
que guarde com o texto semelhança.


Por ser-lhes a arte um vício, quase um ópio,
fazem da mente seu calidoscópio,
quais belas fadas de paleta em punho!


Sem os floreios que essas musas criam,
nossos poemas jamais passariam
dos bisonhos rabiscos de um rascunho!



Confidências de Um Coração
Humberto Rodrigues Neto

 
Não se perca quem ande no meu rumo
e muito menos tu, minha querida;
mas não tentes mudar a minha vida,
nem verticalizar meu torto prumo.

O inclinar-te a uma ação mais atrevida
está nos sentimentos que eu assumo
e nunca na razão, pois não costumo
tomá-la por parâmetro ou medida.

És tu quem forças-me pra te acenar
com os falsos ouropéis de um vão sonhar
e os fátuos brilhos de um amor qualquer.

Assim, não me é possível compreender
que anseios moram no febril bater
do inquieto coração de uma mulher!


Maria das Flores
Humberto Rodrigues Neto


A orquídea que um dia foi na mocidade
em tempos de fastígio e de ventura,
Maria ainda conserva com amargura
no cofre imorredouro da saudade.


Do lírio, então em plena formosura,
guarda apenas na mente a suavidade;
hoje tímida violeta fê-la a idade,
ou um miosótis sem viço e sem candura.


Maria agora traz o olhar vermelho
das lágrimas choradas frente ao espelho,
ante um rosto que franze e se esfacela!


Pranto de perda da falaz vaidade,
tributo amargo da fatalidade
de um dia ter sido tão formosa e bela!



Saudade...
Humberto Rodrigues Neto

(a minha esposa, in memoriam)

Teu desencarne fez-me descontente,
com a alma e o coração sempre em quebranto;
do nosso lar foi embora o antigo encanto 
que tu levaste assim... tão de repente!

Do alto onde estás podes sentir o quanto
por ti pranteio ao te sentir ausente,
e nada existe que tão fortemente
me incline à solidão e ao desencanto!

Não mais teus lábios, nem os teus abraços
tentei buscar noutros alheios braços,
preso à paixão que só por ti nutria!

E hoje vergado a esta infelicidade,
a Dor se fez a esposa do meu dia,
e à noite faço amor com a Saudade!



Até um Dia, Olga!
Humberto Rodrigues Neto

(homenagem à Olga Kapatti, por ocasião de seu falecimento)

Não deixemos que o pranto nos apene
pela poetisa que de nós se afasta,
porquanto a sua poesia pura e casta
Deus quis levar para a mansão solene!

Que esta saudade que hoje nos devasta
não doa em nós como algo tão perene;
pois a alma passa pela morte, indene,
só a carne morre quando enferma ou gasta!

Se em vida a Olga só pisou espinhos,
colhe hoje as rosas lá na imensidade
entre aleias de angélicos caminhos!

Mesmo vendo-a feliz na eternidade,
quão tristonho é lembrarmos seus carinhos
e sufocar no peito esta saudade!


Resposta
Humberto Rodrigues Neto

(homenagem num excerto de um dueto dirigido à Eire – Rosa Lucas)

Esse chamar-me de teu mestre sem o ser
é o que me deixa assim feliz e venturoso,
haurindo rimas de um soneto tão garboso
como esse agora, que te deste a me escrever.

É uma delícia o teu poema... é quase um gozo
ter ante os olhos tais momentos de prazer;
é ter comigo esse tiquinho do teu ser
pulsando vivo num poema tão charmoso!

Das tuas palavras não descreio nem de leve,
e delas faço o meu fanal, “Eire”, porquanto
vem da tua alma o que a tua mão gentil me escreve!

E quando o leio, embevecido em pleno encanto,
sinto invadir-me aquele enleio bom e breve,
qual se estivesse, as Escrituras, lendo um santo!


Desfecho
Humberto Rodrigues Neto


Sei que é preciso, deste amor suspeito,
esperar dias hibernais, tristonhos,
e estar consciente de cruciais, medonhos
e atros suplícios a ferir-me o peito!

Sim, é preciso que eu, a teu respeito,
não borde anseios por demais risonhos,
nem ponha em altos pedestais meus sonhos,
nem sonhe o Éden no teu níveo leito!

Se houver o adeus final de um sonho ardente,
que eu me acostume a não te ver jamais
e viva apenas de um idílio ausente...

Fins de romance... Tão comuns e iguais...
a flor-mulher que amamos loucamente,
que um dia nos deixa... E que não volta mais!
 








E-books de Humberto Rodrigues Neto
(parte bastante expressiva de sua obra poética)

Para baixar o e-book, clique no link
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Se houver algum aviso de "perigo", insista: escolha "AÇÕES" e "EXECUTE ASSIM MESMO". Aguarde um pouquinho enquanto o e-book é baixado.                                 
                                 Expressão Mulher-EM
________________




Realização: Editora Olga Kapatti






Realização: Teka Nascimento / Arte e Poesia





DUETOS EM SONETOS:

Humberto Rodrigues Neto & Regina Coeli Rebelo Rocha



Realização: Drica Del Nero Virtual Bookstore (2008)




Realização: Anna Müller / Canto da Poesia (2010)









Realização: Anna Müller/Canto da Poesia (2011)








DUETOS

Humberto Rodrigues Neto (Humberto - Poeta)
&
Regina Coeli Rebelo Rocha (Regina Coeli)



Realização: Anna Müller / Ilka Vieira / Regina Coeli
 (2012)






HUMBERTO RODRIGUES NETO homenageia FERNANDO PESSOA




Humberto-Poeta responde a Fernando Pessoa:

Quando Olho para Mim Não me Percebo
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.


O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.


Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei


Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.



Eu
Fernando Pessoa

Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.


Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória,
O saber e o ousar da aliança.


Só guardo como um anel pobre
Que a todo herdeiro só faz rico
Um frio perdido que me cobre


Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.


 

Não Sei Quem Sou, que Alma Tenho
Fernando Pessoa

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."



Sonho. Não Sei quem Sou neste Momento
Fernando Pessoa, in " Cancioneiro"

Sonho. Não Sei quem Sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
             Minha alma não tem alma.


Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
             Não tenho ser nem lei.


Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
             Coração de ninguém.



Fosse Eu Apenas, Não Sei Onde ou Como
Fernando Pessoa

Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo...


Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola com Ter
A árvore do meu uso o único pomo...


Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,


Mas doente, e , num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...



Ode a  Fernando Pessoa
Humberto Rodrigues Neto


Quando a gente lê Pessoa
nosso estro sobrevoa
édens de intensa beleza!
Além dessa realidade,
lê-se nele a nua verdade
de que a palavra saudade
só podia ser portuguesa!

Do seu verso a alacridade
se mescla àquela humildade
da flor que nasce no brejo!
E nele a alma lusa entoa
da Mouraria à Madragoa
as cantigas de Lisboa
debruçada sobre o Tejo!

Tudo amou como poeta,
até mesmo a luz discreta
desses lusos arrebóis...
Mesmo ao zizio das cigarras
cantava, em rimas bizarras,
o soluçar das guitarras
e o trinar dos rouxinóis!

Ler nele os descobrimentos,
é ver épicos momentos
que tod'alma lusa entoa!
É ouvir a voz magistral
dessa "Severa" imortal,
isto é fado, é Portugal,
isto é Fernando Pessoa!

ALÁDIA PEREIRA DE ALMEIDA (Brasil)




Apelo
Aládia Pereira de Almeida

Quando eu deixar o mundo tão malvado,
para habitar, por fim, a lousa fria,
nessa hora de tristeza e de agonia,
eu peço que tu fiques a meu lado.


Não quero que tu chores nessa dia,
lembrando o nosso amor tão malfadado,
preciso recordar todo o passado,
e partir com suspiros de alegria.


Depois que eu repousar no meu abrigo,
não me deixes ali abandonada –
quero a visita de teu vulto amigo.


Se na vida, de ti, fui separada,
quero na morte reviver contigo,
toda a ventura que nos foi negada.



Fênix
Aládia Pereira de Almeida

Renascer é preciso, muito embora esmagada,
com a alma sofrida, abatida e sem rumo;
colocar novamente a esperança no prumo,
emergir dos destroços sem gemer, lacerada.


Refazer minha vida ( nem que seja em resumo ),
registrar uma história em que eu seja lembrada,
muito embora sujeita  uma carta marcada
que me trouxe a tragédia pela qual me consumo.


Vou erguer a cabeça, dar a volta na sorte,
já que existe outra vida no horizonte da morte,
qualquer dia, quem sabe ? Vou poder te encontrar.


Renascendo das cinzas a que fui reduzida,
vou viver a utopia, numa ânsia incontida,
e qual fênix, alada, a teus braços voar.



Aquelas Mãos
Aládia Pereira de Almeida

Eram tão magras, feias e manchadas,
aquelas mãos que tanto bem faziam;
cheias de rugas e tão maltratadas
por afazeres que as consumiam.


As unhas quebradiças, sem pintura,
mas sempre limpas e muito curtinhas,
bem raramente viam manicura
ou cremes que as tornassem mais lisinhas.


Eram mãos que se davam com carinho,
distribuindo o amor em seu caminho,
tanto aos estranhos quanto aos entes seus.


As mãos de minha mãe, quanta saudade !
Obras de arte, extrema  raridade,
que estão no acervo do museu de Deus.



Última Homenagem
Aládia Pereira de Almeida

É este o último verso que te faço;
também a última vez que penso em ti,
e estas linhas incertas que ora traço,
não falarão do mundo que sofri.


Segue também aqui o terno abraço,
que de teus braços nunca recebi;
fica comigo apenas o cansaço,
mais a ausência de tudo que perdi.


Não fui culpada, nem foste tampouco,
pois este sonho meu, ingênuo e louco,
tinha, por certo, que chegar ao fim


Resta um consolo ao coração magoado,
que ficou no meu peito, destroçado –
saber que um dia tu pensaste em mim !


Recomeço
Aládia Pereira de Almeida

Não tenho tempo para sentir saudade,
há muita coisa que fazer ainda,
uma ansiedade de viver infinda,
um só prazer de plena mocidade.


Toda emoção é válida e bem vinda !
Sinto o prenúncio da felicidade,
e o coração transborda de vaidade –
há tanta coisa que fazer ainda...


Se já vivi ? Dezenas de verões !
Já tropecei em dúvidas, senões,
já amarguei a solidão da idade.


Sinto um vigor, agora, incontrolado,
começo hoje – não sou mais passado,
não tenho tempo de sentir saudade !



Meu Coração é um Soneto
Aládia Pereira de Almeida

Quantos sonetos fiz ? tantos... nem sei.
Tenho levado a vida em poesia –
nos momentos de dor, sempre rimei,
rimei também nas horas de alegria.


Fiz versos às pessoas que eu amei,
fiz sonetos de angústia e nostalgia;
a Natureza e Deus eu exaltei,
e a Paz e o Amor cantei em poesia.


Fiz sonetos em tarde embaciada,
fiz sonetos em noite enluarada
e madrugada de intenso verão.


O bom Deus, por descuido, ao me criar,
colocou no meu peito a palpitar,
uma lira em lugar de coração.


Vou Chorar Amanhã
Aládia Pereira de Almeida

Vou chorar amanhã. Hoje estou decidida
a viver o momento, seja ele qual for;
vou deixar pra depois toda a mágoa escondida
vou chorar amanhã, sem vergonha ou temor.


Hoje eu quero viver esta hora proibida,
neste dia especial de convite ao amor,
sem sentir-me culpada, receosa, oprimida,
entregar-me à aventura sem censura ou pudor.


É o momento que conta, é o presente que importa,
pois não sei se amanhã estarei viva ou morta,
e talvez me arrependa se esta hora eu perder.


Que consolo terá a minha alma vazia,
rejeitando este espaço de encantada magia ?
Vou chorar amanhã, hoje eu quero viver !


Quero Morrer Assim...
Aládia Pereira de Almeida


Quero morrer assim, numa tarde de sol,
com cigarras cantando e este céu azulado,
no meu leito, tranqüila, sobre um alvo lençol,
consciente e sem dor, sem remorso ou pecado.


Minha vida foi lume sem chegar a farol.
Como um quadro sem tela, como um filme cortado,
como um campo vazio, sem rolar futebol,
me despeço sem mágoa do pobre passado.


Quero morrer assim, sem rancor, sem temores,
quero muita oração, quero velas e flores,
e que amigos poetas não me deixem ao léu.


Sobre a campa cinzenta uma cruz e uma trova,
na certeza que a vida se refaz, se renova,
estará minha alma versejando no céu.


Sabor de Vida
Aládia Pereira de Almeida

Eu amo a vida pelo que é a vida,
pela razão mais simples de viver,
sem me importar se árida é a lida,
se há mais dias de dor que de prazer.


Eu amo a vida mesmo na incerteza,
do dia em que ela me abandonará;
sem pesar de deixar tanta beleza,
sem pensar, lá no Além, como será.


A vida é boa, é só saber vivê-la,
não desejar brilhar qual uma estrela,
nem também, como um verme se arrastar.


Saber chorar, se a dor nos atormenta,
sorrir, quando a alegria se apresenta,
compreender, esquecer e perdoar.



Estranho Funeral
Aládia Pereira de Almeida

Fui sepultar as minhas ilusões
e volto agora, triste, mas feliz;
levei todos os sonhos e emoções,
tudo de bom que com carinho eu fiz.


O tempo solidário e sempre amigo,
que estava firme e claro de manhã,
anuviou-se e enfim chorou comigo,
mandando a chuva de minh’ alma irmã.


Coloquei uma cruz bem tosca e escura,
onde enterrei meus sonhos de ventura,
minha esperança, minha mocidade.


Ninguém veio assistir ao funeral
e eu presidi sozinha o ritual,
tendo a meu lado apenas a Saudade.



“Confiteor“
Aládia Pereira de Almeida


As palavras de amor que não lhe disse,
os gestos de ternura que não fiz
por pudor, por receio, por tolice,
poderiam tê-lo feito tão feliz !


Passei a vida em tola e vã mesmice,
lustrando as aparências de verniz,
e foi-me a juventude; hoje, a velhice
registra o quanto bem você me quis.


Agora é tarde, já não há mais jeito,
se esta paixão dilacerou-me o peito,
confessá-la, a esta altura, que adianta ?


Leia os meus versos, são declarações,
mais que palavras, são as confissões
que deixei sufocadas na garganta.


Coração Amigo
Aládia Pereira de Almeida

Tu vês, meu coração?  Estou sozinha
no emaranhado de visões tão tortas,
em meio à bruma espessa e folhas mortas,
nesta tarde outonal, como andorinha.


Fecharam-se para nós todas as portas,
e a saudade que chega e se aninha,
amargura meu peito e me definha.
Nem tu, que és meu amigo, me confortas.


Estou triste, estou só, estou perdida
num torvelinho de paixão dorida –
que ânsia de gritar e de correr !...


Seria solução, meu caro amigo,
se fizesses um pacto comigo,
deixando, simplesmente, de bater !



Homenagem:

Lenço Solitário
João Roberto Gullino
Homenagem à Aládia Pereira de Almeida
“Quem morre não morreu, partiu primeiro somente.” – Camões

Quando surge a distância em nossa vida
separada por caminhos diferentes,
mesmo que sejam rumos conseqüentes,
fica a dor que será sempre sentida.


Quando a separação é despedida,
transforma-nos em seres impotentes
diante de pesares mais latentes,
que nos traz toda ausência da partida.


Quando escorre uma lágrima na face,
no calado lamento necessário,
é como para si mesmo falasse.


Quando se agita lenço solitário,
a imagem, para que não se enfumace,
prende-se ao coração qual relicário.




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